Pegando a onda »Movimentos sociais pegam carona nos rolezinhos em onda de solidariedade

Disseminação dos eventos de lazer dos jovens pelo país fazem organizações embarcarem na onda de protestos

Julia Chaib – Correio Braziliense – Publicação: 18/01/2014 11:12

A repressão aos rolezinhos em São Paulo gerou uma onda de solidariedade aos jovens da periferia da maior metrópole do país. Na última quinta-feira, centenas de membros do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) tentaram inaugurar a temporada de “rolezinhos de protesto” dentro de shopping centers. Acabaram barrados na porta de dois estabelecimentos de áreas nobres da capital paulista. Manifestações semelhantes estão agendadas em pelo menos 10 capitais, inclusive em Brasília, para os próximos fins de semana. A Polícia Civil do Distrito Federal já monitora os eventos e identificou o MTST como um dos prováveis protagonistas dos atos.

“Tem que ter rolezinho mesmo, contra o preconceito que a sociedade tem com os mais carentes”, justifica Edson Silva, dirigente nacional do MTST e coordenador do movimento no DF. Ele esclarece, no entanto, que o grupo não deve aderir aos rolezinhos já marcados para Brasília. “Apoiamos, mas não vamos participar”. Estão previstos eventos a partir do próximo sábado, no Shopping Iguatemi, no Lago Norte, e em 1º de fevereiro, no ParkShopping e no Taguatinga Shopping. Silva revela que o MTST se prepara para organizar um protesto próprio, “com aliados de sindicatos de esquerda, dos movimentos sociais e estudantes da Universidade de Brasília”. O movimento, que ainda não tem data marcada, deve começar em algum centro de compras e passar por outros lugares“onde as pessoas que têm mais grana frequentam”.

De origem paulistana, o MTST tem como principal bandeira o acesso à moradia para pessoas de baixa renda. O grupo chegou ao DF em 2010 e, desde então, protagonizou invasões e ocupações de áreas públicas e privadas, com disputas judiciais e enfrentamentos com a polícia. Eles não são novatos nos shoppings. Em 2011, o movimento organizou um protesto no Pátio Brasil, “com bandeira, batendo em lata e palavra de ordem”. Não houve tumulto ou repressão. Silva garante que, neste ano, o movimento também será pacífico. “Apoiamos o rolezinho, desde que seja na paz, organizado e sem vandalismo, sem quebrar nada. Nada vai mudar se quebrarmos um objeto público ou privado. Não pode ser radical”, analisa.

Apropriação
A socióloga da Universidade de Brasília (UnB) Patrícia de Almeida avalia que, embora não tenha origem política, o rolezinho adquiriu esse viés com a disseminação e a repressão ao movimento. Para a professora, movimentos que já têm cunho político social aproveitam a oportunidade para serem vistos. “Os jovens desses rolezinhos não querem se identificar com determinados movimentos ou partidos políticos. Por isso, o MTST se apropria do rolezinho, ao invés de se aproximar, para dar um cunho político, mas com a cara deles”, opina a professora, que estuda a juventude. Sobre o rolezinho do Shopping Iguatemi, onde devem participar universitários e jovens de classe média, Patrícia avalia que isso não significa uma apropriação do movimento, como no caso do MTST. “Esse evento tem um valor simbólico. Eles vão com o intuito de fazer a mesma coisa dos jovens de São Paulo, mas em solidariedade aos de lá.”

Para o professor de Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Paulo Carrano, os rolezinhos representavam, de início, uma demanda por espaços de sociabilidade. “Participantes relataram que o objetivo de fazer o rolezinho no shopping era justamente escapar das abordagens policiais, que sempre ocorriam quando o encontro era na rua. O shopping center é apresentado como um lugar seguro, e os jovens compraram essa ideia. O irônico é que, ao chegar lá, foram rechaçados”.

A “politização” dos rolezinhos pode estar relacionada ao clima de protesto que tomou conta do país em junho passado, avalia Carrano. “Esse ‘caldo de cultura’ dos protestos de junho ainda está no ar. Tanto o rolezinho quanto a percepção de que a sociedade e a mídia tiveram dele foram influenciadas por essa atmosfera”. Para ele, o rolezinho dificilmente voltará ao caráter inicial, de simples passeio. “A questão adentrou a esfera pública, com entidades, agentes políticos, partidos e outros atores debatendo, formulando e disputando a construção do conceito do que é esse fenômeno”, avalia.

“Os jovens desses rolezinhos não querem se identificar com determinados movimentos ou partidos políticos. Por isso, o MTST se apropria do rolezinho, ao invés de se aproximar, para dar um cunho político, mas com a cara deles” 
Patrícia de Almeida, socióloga da Universidade de Brasília (UnB)

Encontros
proibidos

Para se protegerem de eventuais prejuízos causados pelos rolezinhos, diversos shoppings têm buscado proibir os atos com decisões judiciais. O evento marcado para amanhã no Shopping Leblon, no Rio de Janeiro, tem cerca de 9 mil adesões em uma rede social. Caso algum rolezeiro apareça, no entanto, terá de arcar com multa de R$ 10 mil, estabelecida pela Justiça, que proibiu o evento na noite de ontem. Decisão semelhante já havia sido expedida em São Paulo, relativa a evento previsto para o Shopping JK Iguatemi. Na contramão da decisão, juízes de Niterói e de Campinas, acionados por centros comerciais, se negaram a proibir os encontros, determinando somente que a polícia fosse informada do evento.

O Ministério Público de São Paulo reuniu cinco promotorias para mediar a relação entre os jovens, o poder público e os donos de shoppings. Até agora, pelo menos sete centros de compras conseguiram liminares na Justiça para impedir a entrada de adolescentes desacompanhados. Há pelo menos 15 eventos do tipo agendados pelo Brasil. Em Brasília, são três: no Shopping Iguatemi, no Taguatinga Shopping e no ParkShopping.

Um comentário em “Pegando a onda »Movimentos sociais pegam carona nos rolezinhos em onda de solidariedade

  1. A matéria do Correio Braziliense força a barra para dizer duas coisas: 1. Os rolezinhos não são “políticos”; e 2. Os movimentos sociais estariam sendo oportunistas “pegando carona” no “movimento” dos jovens promotores dos rolezinhos. Quando o repórter me entrevistou senti as citadas intenções. De minha parte, dois reparos: Em primeiro lugar, não sou sociólogo, mas prof. de Educação Física por formação, Mestre e Doutor em Educação com pós-doutorado em sociologia e sociologia da Educação. Na UFF, atuo na Faculdade de Educação. Mas, entendo a simplificação da reportagem em meus créditos. É mais fácil que as pessoas reconheçam num “sociólogo” uma opinião qualificada para este tema. Em segundo lugar, além de dizer que os jovens procuraram o shopping também como refúgio contra a repressão policial de seus encontros nos espaços públicos, chamei a atenção para o fato de o shopping se apresentar como o lugar por excelência para a satisfação dos desejos de consumo e visibilidade dessa garotada. Neste sentido, não se trata apenas de ir ao shopping porque faltam espaços de lazer nas comunidades. Sim, faltam e não deveriam faltar espaços de lazer e cultura nos bairros populares. Mas, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, sociologicamente falando. Também comentei sobre a absurda e preconceituosa reação dos shoppings de barrar jovens da periferia; todos pretos ou quase todos pretos. Mas, parece que isso não atendia aos interesses editoriais do momento.

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