Ex-bolsistas criam rede para retribuição ao Sem Fronteiras

Terra/Educação – 29 de setembro de 2014

O objetivo é que intercambistas se conectem para desenvolverem projetos no retorno ao Brasil

Em meio à polêmica sobre falta de empenho de intercambistas brasileiros na Universidade de Southampton, ex-bolsistas do Ciência sem Fronteiras se sentem injustiçados. Eles fazem parte da Rede CsF, fundada por quatro participantes do programa do governo federal e que busca mostrar histórias de sucesso dos brasileiros que foram estudar no exterior. “Nós achamos que foi dado muito foco para alguns poucos casos ruins e foram deixados de lado diversos casos bons”, diz João Paulo de Almeida Barbosa, um dos diretores da rede. “É incrível a quantidade de pessoas que escrevem para nós contando histórias de sucesso de algum brasileiro durante o programa”.

Diretoria da Rede CsF, com os quatro fundadores no centro: Elias Rolim, Luciano Telesca, Deborah Celestrini, Monique Gasparoto, Guilherme de Rosso, João Paulo de Almeida Foto: Reprodução / Acervo Pessoal

Há sete meses no ar, a rede tem focado em projetos de comunicação com seus 1.240 membros e o público em geral. Como exemplo, a ONG elaborou um questionário para os bolsistas em que procura entender as reclamações e pontos positivos da viagem. Disponível no site da rede desde 7 de julho, mais de 600 pessoas responderam ao questionário – mas nem todas terminaram o intercâmbio, portanto, não puderam participar da última parte. O resultado final será entregue à Fundação Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), do governo federal, quando a amostra atingir 383 respostas completas (faltam 177 intercambistas formados), número mínimo para a pesquisa ser representativa.

Em breve, os estudantes pretendem ir além: apostam em uma plataforma de integração para os bolsistas, que incentive projetos para o Brasil em retribuição à bolsa. Segundo Guilherme de Rosso Manços, um dos fundadores, a ideia é criar fóruns de discussão e um local para cadastro de projetos de alunos para depois da viagem. Ele projeta, assim, que as iniciativas ganhem visibilidade no meio acadêmico, nas empresas e envolvam outros membros. “Tem pessoas que fazem coisas parecidas (projetos após o CsF), mas não se conhecem. Se não se conhecem, não trocam ideias e não podem trabalhar juntas”, afirma Manços. “Esse é o objetivo da rede, fazer com que essas pessoas se conectem”.

De acordo com ele, muitos bolsistas fazem pesquisas relevantes fora do País durante o intercâmbio, mas, quando voltam, não conseguem colocar suas ideias em prática por aqui. “Muita gente quer fazer alguma coisa, mas fica de mãos atadas. Ou porque não tem integração com as oportunidades no Brasil, ou falta informação nas universidades ou não tem infraestrutura”, diz.

A exemplo do objetivo de integração da Rede CsF, os quatro criadores do projetos são de Estados e regiões diferentes – mas se comunicam pelo menos uma vez por semana. Antes de se conhecerem, Guilherme de Manços cursava Ciência e Tecnologia na UFRN, Luciano Telesca estudava na Universidade Federal de Pelotas, Rio Grande do Sul, Deborah Celestrini estava na UFRJ, e Monique Gasparoto, na USP. Foi a partir do intercâmbio – e do acaso – que a reunião aconteceu.

Guilherme foi selecionado no primeiro edital do programa, em janeiro de 2012, assim como Monique. Mas os dois foram para universidades diferentes, a Clark e a Boston, nos Estados Unidos, distantes cerca de 70 quilômetros. Eventos em comum aproximaram os estudantes.

Já Deborah e Telesca participaram do segundo edital e fizeram o mesmo curso de inglês em Nova York. A ida de Deborah para a mesma universidade de Manços foi a responsável por unir o grupo, que só viria a lançar a Rede CsF em fevereiro de 2014. “Até hoje, todo mundo está espalhado”, conta Manços. Segundo ele, há reuniões semanais pelo computador, em que se discute o trabalho. “A gente só conseguiu reunir (presencialmente) os seis diretores uma única vez, em Brasília, no lançamento do Ciência Sem Fronteiras 2.0”.

Desde o início, todo o trabalho da ONG é voluntário – e o investimento para manutenção de sites, viagens para eventos e divulgação sai, por vezes, do bolso dos próprios diretores. “Parcerias que venham a somar”, ressalta Manços, “são bem-vindas”.

Revista científica gratuita
Um pouco antes de voltar ao Brasil, André Sionek notou um jornal diário que circulava nos corredores da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, onde passou dez meses por meio do Ciência sem Fronteiras. O The Daily Pennsylvanian era comum, tinha notícias de cotidiano do campus, atletismo, fofocas e eventualmente alguma pesquisa. O que chamou a atenção do estudante foi a circulação: sete mil exemplares gratuitos, todos os dias, para cerca de 20 mil alunos da universidade.

Um jornal de fofocas da Universidade da Pensilvânia fez André Sionek criar uma revista gratuita para universitários no Brasil Foto: Reprodução / Acervo Pessoal

A experiência serviu de base para Sionek criar a revista Polyteck e distribui-la no Brasil. “Eu pensei: se um negócio como esse (The Daily Pennsylvanian) funciona, consegue se manter economicamente, eu provavelmente consigo criar uma revista científica focada no público universitário no Brasil e que se mantenha somente com anúncios e publicidade”, conta.

O periódico americano apostava na publicidade para se manter – mas também recebia apoio da universidade. A primeira edição da Polyteck, no entanto, custou ao ex-bolsista o seu carro, além da poupança do parceiro de faculdade Fábio Rahal. Dos R$ 6 mil investidos, o retorno foi de 10%. Mesmo assim, em setembro de 2013, André Sionek tinha dado início, junto com Fábio e outra colega, Raisa Jakubiak, à sua tentativa de mudar o interesse científico do aluno brasileiro de ensino superior.

De acordo com ele, falta contato dos estudantes brasileiros com artigos científicos e pesquisas de outras áreas do conhecimento. “Lá nos Estados Unidos, era comum, inclusive para calouros, ler artigos científicos e até escrever artigos”, compara.

A proposta da revista de Sionek é fazer um apanhado da produção científica de universidades de todo o mundo e distribuir de forma gratuita em campi de todo o País. Atualmente na sétima edição, a revista vai para universidades como USP, Unicamp, ITA e UFRGS, que recebem, calcula Sionek, entre 200 e 300 exemplares impressos. A maior parte das revistas é destinada à Universidade Federal do Paraná, onde o estudante cursa Física.

Todo o conteúdo também está online, mas o criador da revista conta que o maior objetivo é colocar o material literalmente nas mãos dos alunos. Para ele, a publicação virtual acabaria atingindo o aluno que já tem maior pró-atividade. “Entregando a revista impressa, eu atinjo o aluno que tem potencial para ser muito melhor, mas está meio acomodado”.

Sionek afirma que, hoje, a Polyteck se sustenta sozinha. Porém, ainda tem dificuldade para chegar a outras universidades, pois é financeiramente limitada. “Lançamos uma campanha no Catarse (site de financiamento coletivo), em janeiro, mas não conseguimos atingir a meta”, afirma o estudante. No fim do prazo de arrecadação, 226 pessoas haviam doado R$ 9 mil – faltaram R$ 53 mil. Para o futuro, Sionek aposta nas parcerias. “Estamos buscando empresas com abrangência nacional que patrocinem a Polyteck. É com isso que a gente conta para a expansão da revista”, projeta.

Polêmica gera debate sobre o programa
Recentemente, a Universidade de Southampton, no Reino Unido, teria contatado a Science without Borders (SwB UK), entidade responsável pela parceria com o Ciência sem Fronteiras, e reclamado de falta de empenho de bolsistas brasileiros nos estudos. Estudantes ouvidos pela Agência Brasil atribuíram o fato, em parte, à falta de exigência e cobrança do governo federal.

Para Paulo Carrano, professor de Educação da Universidade Federal Fluminense, o comunicado da SwB UK é similar a “um professor brasileiro na sala de aula dizendo a todos: ‘vocês não querem nada com nada’”. A Universidade de Southampton se desculpou após o episódio.

Segundo o professor, o aluno tem responsabilidade no ocorrido, pelo fato de ter assinado um contrato em que promete desenvolver a formação e remeter ganhos científicos e culturais ao Brasil. “Independentemente de ser cobrado ou não”, afirma. Mas ele também responsabiliza em parte as universidades, quando há normas “brandas”. “A indisciplina não é uma peculiaridade do estudante brasileiro. Se o estudante inglês não quer estudar, o que eles fazem?”, questiona.

Carrano pensa que o acompanhamento durante o intercâmbio pode ser melhorado, mas não vê como positivo um “sistema rígido” de controle no exterior, que não permita ao estudante “andar com as próprias pernas”. Defende que a autonomia intelectual é parte do aprendizado – e ela não é estimulada com supervisão exagerada.

Cleci Maraschin, professora do Instituto de Psicologia da UFRGS, chama a atenção para fatores como a seleção do programa no Brasil e o grau de dependência do estudante brasileiro. Segundo ela, eles podem influenciar em comportamentos negativos dos estudantes. “Podemos pensar, por outro lado, que há um controle excessivo no Brasil”, diz. “Talvez essa alta ‘disciplinarização’ gere falta de confiança e responsabilidade quando (o estudante) vai para o exterior”.

O ex-bolsista André Sionek acredita ainda que os órgãos de fomento deveriam cobrar do estudante brasileiro uma contrapartida quando chega ao Brasil. “Poucos alunos têm a iniciativa de fazer isso”, diz. “Poderia ajudar a melhorar o propósito do programa”.

A respeito da declaração da presidente Dilma Rousseff de que poderia estabelecer limite de renda para o Ciência sem Fronteiras, o professor Paulo Carrano afirma que “não seria um absurdo” uma combinação de mérito e demanda social. Mesmo assim, diante da atual política de democratizar o acesso nas universidades públicas, isso poderia ser um “retrocesso”.

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