Qualidades e críticas à educação em Cuba expostas na tela

Premiado filme ‘ Numa escola em Havana’ é aclamado tanto pelo governo, quanto pela oposição 

8 set 2015 O Globo MARINA GONÇALVES

Atendendo a um “chamado da Revolução Cubana”, Carmela Martínez, então com 14 anos, ingressou no magistério. Formou­ se pelo Sistema Makarenko ( inspirado no ucraniano Anton Semyonovich Makarenko, pedagogo que se especializou no trabalho com menores abandonados, especialmente os que viviam nas ruas e realizavam pequenos crimes). O tal chamado, que duraria cinco anos, transformou­ se em uma vida inteira dedicada à educação, principalmente em bairros periféricos de Havana, como o Cerro, onde se passa “Numa escola em Havana”, em cartaz no Brasil. A professora Carmela do filme, totalmente inspirada nela, é a linha condutora de um dos longas mais aplaudidos recentemente em Cuba — aclamado tanto pelo jornal oficial “Gramna”, quanto pela jornalista opositora Yoani Sanchéz, e com prêmios em festivais na Espanha, no México e em Nova York. E mostra os problemas reais e os méritos de um dos sistemas educacionais mais elogiados do mundo.

— Para formar alguém que tenha algum futuro, é preciso ir mais além dos métodos de ensino. É preciso tê­ los como seus. Se você não sabe como os alunos vivem ou como são formadas suas famílias, o que você faz é ensinar apenas. Mas eu me proponho a educar. Se não, meu trabalho fica pela metade. E essa possibilidade me foi garantida pela pedagogia cubana — conta a verdadeira Carmela, em entrevista ao GLOBO.

As críticas ao sistema educacional, como a rigidez do método de ensino, entre outras coisas, também estão no filme — o que talvez explique seu sucesso unânime dentro e fora do país. Em uma das cenas, quando questionada se não estaria há muito tempo na função, Carmela reage: “E os governantes deste país também não estão?”

O diretor, Ernesto Darañas, não se furta a abordar este e outros temas, mesmo que de maneira branda. Dentro do cenário criado por ele, estão o filho que sustenta a casa com atividades ilegais, cuja mãe, alcoólatra, mal tem dinheiro para comer. Assim como aquele cujo pai é preso político. Além do dia a dia de um bairro periférico:

— A aula de Carmela é, na realidade, uma pequena radiografia da sociedade cubana. Os problemas observados ali são os problemas de um país imerso em uma crise que dura já um quarto de século. As reformas econômicas que hoje estão acontecendo não conseguiram beneficiar nossos setores mais humildes e isso cria problemas como os de Chala ( aluno problemático retratado no filme), o que pode acontecer em muitos outros lugares — avalia Darañas. — De fato, durante o amplo percurso internacional do filme, encontramos essa mesma identificação com um grupo de problemas que afetam a muitos países com culturas, sistemas políticos e níveis de desenvolvimento diferentes.

ANALFABETISMO ZERO E SALÁRIOS BAIXOS

Segundo dados do governo, Cuba conta hoje com 10.350 instituições educacionais, que absorverão 1.792.800 alunos no ano letivo, que acaba de começar. O Ministério de Educação contou este ano com US$ 17,5 milhões para importação de material escolar, que é gratuito, e a reforma de 43 escolas.

O ensino básico, até o 9 o ano, é obrigatório e todos estudam em período integral, com duas horas para almoço. Cuba foi o primeiro país da América Latina a se declarar livre de analfabetismo e os índices de aproveitamento escolar estão entre os mais altos do mundo. Nas últimas décadas, organizações internacionais, como a Unesco, reconheceram as conquistas do país no setor.

Carmela, hoje com 66 anos, teve a oportunidade de conhecer os dois sistemas de ensino, antes e depois da chegada do Partido Comunista ao poder, e é só elogios ao sistema atual:

— Não fui alfabetizada na época. Não fazíamos esportes na escola, não íamos a museus. Tive bons professores, mas hoje o conteúdo é mais forte. Nunca investiguei nada, não fazia pesquisas, não tinha tarefas para fazer em casa. Os pais não participavam da educação.

Mas, se a formação qualificada de professores continua sendo uma das prioridades do governo de Raúl Castro, o êxodo de profissionais da educação a outras áreas, como o turismo, é visível. Os salários são mais baixos e, ao contrário de outras carreiras, onde é possível ter vários empregos, a jornada dos professores é integral. E eles ainda esperam uma reforma salarial, como a dos profissionais de saúde, que tiveram um aumento significativo no ano passado. Não por acaso, “Numa escola em Havana” provocou filas quilométricas nos cinemas pelo país.

— Em Cuba não se encontra uma Carmela em cada esquina. Mas tive professores assim, meus filhos tiveram professores assim ( um deles, inclusive, teve aula com a Carmela real). É importante falar sobre isso, de algo que estamos perdendo em todas as partes e da importância de devolver ao educador o papel e o reconhecimento que lhe corresponde — afirma o diretor.

Fonte:  8 set 2015 O Globo MARINA GONÇALVES marina.goncalves@oglobo.com.br

Cena do filme "Uma escola em Havana"
Cena do filme “Uma escola em Havana”

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